Porque não votar PS (e o que fazer em vez disso)

September 29, 2019  •  Tags: politics, Portugal, portuguese  •  Cerca de 1152 palavras  •  Twitter

Diz o povo acerca de políticos e partidos que, “eles são é todos iguais.” Como em tanto da sabedoria popular, esta afirmação apesar de vaga, tem um substancial fundo de verdade. Mas para lá chegar, é preciso aumentar um pouco o rigor.

O chamado “arco do poder” é composto, para além do PS, por PSD e CDS.1 Estes são partidos que, como explicou certa vez o actual presidente da república (na sua encarnação anterior como comentador na TV), podem realmente compor um governo. Sendo que partidos como (por exemplo) o BE ou PCP, continuou o distinto Herr Professor Marcelo a explicar, servem para legitimamente exprimir dissidências populares, e apenas para isso—governar mesmo, isso é só para “partidos a sério”.2 Vamos ignorar o flagrantíssimo desrespeito que isto mostra pela mera noção de soberania popular (senão tinha que escrever outro artigo); exactamente o que significa a existência deste “arco do poder”?

Significa que apesar das diferenças que existem de facto, entre os partidos que o compõem, existe um leque muitíssimo maior de aspectos em que nenhum destes partidos vai ousar mexer—excepto em meros câmbios cosméticos, e mesmo assim, quanto menos melhor. O Tratado Orçamental, a livre circulação de (e os diminutos impostos sobre) o capital, os privilégios da banca, o enfraquecimento do poder laboral (e o consequente aumento do poder dos empregadores), etc. Estes domínios, assim efectivamente colocados para lá do alcance do controlo democrático, são transformados em verdadeiros direitos divinos—algo que era suposto ter terminado com o fim da monarquia.

E estes são precisamente os aspectos que mais beneficiam as classes endinheiradas—em detrimento do resto.3 “Eles são é todos iguais” é então o modo como esse resto—o povo em geral—exprime, de um modo informal mas nem por isso menos real, a sua percepção desta ignóbil realidade. Contudo, à luz da discussão acima—e parafraseando George Orwell—seria mais correcto dizer que “eles são de facto todos iguais—mas uns são mais iguais do que outros!” O que nos traz finalmente ao PS.

Creio que não me afasto de percepção geral se disser que o PS é de esquerda, basicamente, quando lhe convém. E em 2015 conveio-lhe muitíssimo: caso contrário, não poderia ter formado governo. O resultado foram acordos inéditos com BE e PCP—a famigerada geringonça—que travou a austeridade e deu passos, tímidos mas importantes, no sentido de reverter os danos infligidos pela anterior legislatura (PSD/CDS). Quando não lhe convém, o PS regressa ao seu mui confortável assento, firmemente dentro do arco do poder. E esta é a principal razão para NÃO votar PS: agora que tudo indica que poderá governar sem estar dependente da esquerda, a costela socialista (“esquerdista”) do PS será, sem qualquer cerimónia, mandada janela fora. Se provas fossem precisas, basta ver a efusiva reacção com que a nata do mundo empresarial tratou António Costa, aquando do recente almoço no Ritz em Lisboa.4 Uma das ilações mais óbvias a retirar daqui, é que mais estratagemas para gerar lucro através da desvalorização do trabalho (essencialmente o que se fez com a austeridade), já estarão, certamente, no horizonte… Contudo, pelas razões já indicadas, votar no PSD ou no CDS vai ser essencialmente o mesmo que votar no PS. Em quem votar então?

Haverá certamente quem, em face deste panorama, tome a decisão de ou não votar, ou votar em branco ou nulo. É uma má decisão, porque aumenta o valor dos votos válidos, exacerbando injustamente a vantagem de quem ficar em primeiro.5 Pela minha parte, votarei no Livre, pelas razões—e apesar dos problemas—descritos aqui.6 Mas para quem não se identificar particularmente com o programa, eis a alternativa que proponho:

→ Votem em qualquer partido, QUALQUER partido, menos PS, PSD e CDS!

(ver aqui a lista completa de partidos)

Isto aumenta a probabilidade de tornar muito dispersa a composição do parlamento (leia-se, poucos deputados de cada partido, mas muitos partidos diferentes). O que dificultará, espera-se, a formação de um executivo que aceite acriticamente voltar à austeridade—como o PS certamente fará ao primeiro sinal de crise—o que por sua vez nos dará tempo. Tempo para lutar contra as idiotices económicas que infelizmente são hoje lugar-comum no discurso político—os tais direitos divinos referidos acima. Para ver se se consegue, finalmente, colocar o país (e a Europa!) nos eixos, ou mais perto deles do que se está agora—em vez de assistir impávidos, à repetição de politicas falhadas. É uma boa solução? Não. Mas comparada com a, até agora infelizmente provável, maioria (quiçá absoluta) do PS, parece-me uma solução muito menos má. Até haver melhor—até sermos capazes de construir melhor—toca a evitar PS, PSD e CDS!!

EDIT 4 de Outubro de 2019: acrescentei mais um link acerca dos pontos negativos do Livre (v. a nota de rodapé que começa com “Full disclosure:”). São aspectos graves, e não estaria a ser intelectualmente honesto se não os referisse.


  1. Existem outras designações: arco da governação, ou (partidos capazes de criar) consensos alargados, etc, etc.

  2. A “geringonça” não tinha ainda acontecido.

  3. Esta questão está, para as ditas classes endinheiradas, longe de ser pacífica (apesar de ser óbvio para todos os demais). Não obstante, a história está cheia de exemplos onde o óbvio de facto estava errado, pelo que seria recomendável explicar mais aprofundadamente porque é que esse não é aqui o caso. Contudo, para não alongar demasiado o texto, não o farei aqui (talvez num futuro post…).

  4. O artigo do Expresso menciona logo no início uma «“coligação” entre o Governo e as empresas, para a subida dos salários dos trabalhadores na próxima legislatura». Será provável que o patronato alinhe numa coisa destas, a não ser em condições muito favoráveis—e provavelmente irrealistas—de crescimento económico? A história diz-nos que não.

  5. Por exemplo, num universo de 100 eleitores, se todos fizerem votos válidos, e 40 votarem no PS, este fica com 40%. Mas se 20 dos eleitores decidirem não votar (ou votar branco/nulo), os mesmos 40 votos dão uma maioria quase absoluta(!)—50% dos 80 votos válidos totais!

  6. Full disclosure: sou apoiante, mas não membro, do Livre. Acerca dos problemas que refiro, ver também este texto, pelo mesmo autor. Os problemas que ambos textos apontam resumem-se, por um lado, ao defender da discriminação por atributos inaceitáveis (por exemplo, por género nas chamadas “quotas”), e à crescente defesa da intromissão do estado em aspectos exclusivamente do foro privado. Por exemplo, limitar o que se pensa, mesmo quando seja pelas mais nobres das intenções, como por exemplo, para combater o racismo. Socorrendo-me novamente da sabedoria popular, “de boas intenções está o inferno cheio…” Votarei no Livre, como disse, mas estas asneiras têm que começar a ser corrigidas…